Meus Olhos Meus Mestres

Sou uma pessoa de emoções intensas, para não dizer muito emotiva. Hoje, pensando no porque da imensidão dessas emoções me deparei com eles, os meus olhos, que sempre me fazer chorar: choro quando estou muito feliz, triste, serena, com raiva, cheia de amor para dar, para receber, assistindo tragédia e comédia, pensando, refletindo e até orando. Será que existiu um só dia na minha vida em que não chorei em algum momento? Acho que não! Mas...o que me fez escrever hoje foi a grande descoberta da minha vida, percebi que eles (chamarei meus olhos simplesmente de eles) estavam o tempo todo tentando me fazer ver o quanto eram importantes para mim, assim como uma criança ou um cachorrinho de estimação que faz de tudo para chamar atenção da pessoa amada. Comecei a usar óculos com apenas 5 anos de idade e detestava quando os coleguinhas da escola debochavam dos meus quatro olhos.

Nunca tive cuidado com eles, com uns 10 anos eu coloquei remédio para Pitiríase versicolor ("micose de praia", "pano branco") pensando que era um colírio. P.Q.P.!!! Que dor miserável, sai pulando pela casa, gritando de dor, enfiei a cabeça na torneira deixei a água fazer a sua parte e mesmo assim passei o resto do dia com eles inchados. Quando ainda era adolescente peguei uma conjuntivite terrível, eles se sentiam como se tivessem cheios de areia, ardia e coçava. Eu colocava colírios e água boricada, mas nada resolvia. Já se passavam mais de 10 dias e eu ainda acordava com eles remelentos, inchados e bem vermelhos, até que alguém teve a brilhante ideia de colocar limão. Foi uma maravilha! Nunca pensei que uma adolescente poderia competir com Neil Armstrong e chegar à lua a bordo do seu poderoso limão (para que Apolo II se eu tinha um limão). Nessa viagem eu passei mais de 30 dias sem enxergar quase nada, minha dinda colocava a comida na minha boca e me guiava pela casa, só melhorei com injeções de penicilina que o médico receitou após colher amostras da secreção ocular.

Aos 31 anos resolvi que iria fazer a cirurgia e livrar-me dos óculos, então o médico me explicou que provavelmente aos 40 iria voltar a usá-los, mas isso não importava porque 9 anos de liberdade era o bastante. Fiz todos os exames e solicitei a autorização do plano de saúde, agora era só esperar que em 13 meses faria a cirurgia. Que nada! Em menos de um mês a atendente do médico ligou perguntando se eu queria fazer a cirurgia em dois dias, pois o paciente agendado para aquele dia havia desistido e, como eu era a única da fila que estava com todos os exames prontos, teria que resolver rápido. No dia marcado estava lá, a cirurgia estava indo bem até que ouvi o médico falar uma coisa do tipo, vamos fazer de novo...não colou direito, tá cheio de fiapo...não entendi direito o que aconteceu, só sei que já tinha feito o procedimento no olho esquerdo, terminou o direito e depois  voltou pro esquerdo de novo. Uma cirurgia que no máximo demoraria 2 horas, a minha demorou 4 horas. Sai de lá sentindo um certo ar de preocupação do médico, tanto que ele abriu a clinica no domingo só para me examinar. Resumindo, demorei o dobro do tempo normal para consegui ver novamente. E para minha surpresa dois meses após a cirurgia o plano de saúde suspendeu todas as cirurgias. Destino? Ou eles transmitindo alguma mensagem?

Há dois anos fui fazer uma consulta meio receosa, afinal já estava com 38 anos e sentido certa dificuldade de enxergar a noite e pela manhã, pensei que a minha fase sem óculos iria acabar. Mas, foi pior do que eu pensei, pois foi diagnosticado que eu tinha a Distrofia de Fuchs*. A médica explicou o que era a doença e tentou me acalmar, no entanto, foi bem clara ao dizer que a cura seria o transplante de córnea mas, que eu não me preocupasse. Quem não ficaria preocupada? Procurei outro médico na esperança dela ter se enganado, mas ele não só confirmou como disse que em dois anos eu teria quer fazer o transplante. Fiquei arrasada durante alguns dias, até que minha irmã providenciou uma cirurgia espiritual para mim e, no dia marcado fiz a cirurgia com ela ao meu lado. Com a minha irmã sempre me acompanhando e rezando por mim, me sentia bem melhor. Ela esteve presente nos dias de curativos e até hoje faz orações para a minha cura. Um ano após a cirurgia espiritual voltei ao médico que havia dito que o transplante seria em até dois anos, ele mudou o discurso e disse que agora não poderia dizer quando iria precisar fazer transplante.

Hoje estou aqui simplesmente para agradecer a eles, pois hoje eu sei o quanto são importantes para mim, porque graças a eles meus outros sentidos se desenvolveram melhor, porque foi através deles que consegui enxergar todas as pessoas que me amam e o quanto é importante valorizarmos o nosso ser, desde a célula mais minúscula até o todo. Um agradecimento especial para a minha neguinha, para o Dr A.C de Castro e todos aqueles que estão sempre do meu lado como: Mô, meus filhos, minha mãe, dinda, meus irmãos, tias e amigos queridos.



Só me resta descobrir porque quando uma pessoa morre as últimas células a morrerem no corpo humano são as epiteliais da córnea e, no entanto, existem pessoas em que estas mesmas células morrem antes mesmo da pessoa falecer.

*Doença que segundo a Wikipédia é “também conhecida como distrofia endotelial de Fuchs, é uma doença da córnea lentamente progressiva que geralmente afeta ambos os olhos e é um pouco mais comum em mulheres do que em homens, em geral quando manifestada no homem é sempre associada a alguma outra tipo de distrofia. Embora os médicos possam frequentemente observar sinais precoces da distrofia de Fuchs em pessoas na faixa dos 20 a 30 anos de idade, a doença raramente afeta a visão até a pessoa atingir a idade dos 50 e 60 anos.” “Quando alguém é afetado pela distrofia de fuchs, as células da camada interna da córnea, denominada de “endotélio”, começam a morrer (por isso também é chamada de “Distrofia endotelial”). A partir do momento em que essas células começam a reter a água da vista, a córnea incha e a visão torna-se cada vez mais indistinta, “borrada”, e com dificuldades em encarar a luz. A Distrofia tem início quando a água retida começa a criar edema na córnea.”